quarta-feira, 24 de abril de 2013

20 anos


Hoje mais uma sobrinha faz 20 anos, e pra você eu só desejo que não engula a vida.
Talvez você seja a mais parecida comigo. De se jogar, de querer tudo hoje, tudo agora, tudo sempre e tudo muito.
De se fazer de durona, de fingir ligar o foda-se, mas de ser uma coração de maria mole que se magoa com quase qualquer coisa dessas coisas que fazem magoar.
Por isso eu sei o que desejo. Porque aos 20 pode parecer que já passou muito tempo. E passou. Mas ainda não é nem a metade do que tem ainda pra passar...
E a vida não se deixa ser engolida, não adianta.
Não precisa querer fazer isso agora. Só se lembre de um dia tentar.
Não se preocupe, você vai ter todo o tempo do mundo. E sempre que engasgar vai ter do lado as mulheres da sua vida, o(s) homem(s) da sua vida e ali mais distante aquela tia louca que sempre vai entender o que você diz, provavelmente porque já aconteceu com ela também...
E você, mais do que ninguém, sabe que a vida é pra ser dançada, não pra ser engolida.
Às vezes com cara de mau, mas sempre fazendo a saia rodar.
Mesmo que hoje seja fora do tablado, porque o mundo sempre vai ser um palco para você.



É Thathá, não tem presente... Só tem palavra.

Feliz Aniversário!

terça-feira, 9 de abril de 2013

Alex, quem é você?



Hoje, poderia ser um dia marcado por vários acontecimentos, nenhum deles bons. Mas sem querer eu resolvo que meu dia pode deixar de ser ruim e ser só esquisito.

Isso acontece quando me percebo conversando com um wi-fi.

Aquele momento em que a rede do vizinho, a tal da Alex, tem um sinal melhor que o da sua casa - e não é pouco melhor, é muito melhor, como se estivesse ali, pronta pra te atender para-sempre-te-amo, dizendo "Te prometo ser quase fiel - porque vou atender o também o Alex, amar-te e respeitar-te (porque a minha não me respeita nem um pouco, essa safada), não cair por qualquer chuvinha, enfrentar tempo instável, estar contigo nos fins de semana, feriados e datas festivas" é o exato momento em que você diz:
- Alex, quem é você e porque você não é o meu melhor amigo?

O pior é que eu fiquei esperando ela me responder, dizendo a senha.

E tem gente que reclama do dinheiro que não caiu na conta. Vocês não sabem o que é uma decepção, até não conhecerem o Alex.


quinta-feira, 21 de março de 2013

Manias


Ela tinha a mania feia de rir alto. Essa mania besta de falar de sexo como quem fala de bordado. De beber mais que muito homem. De não se importar com a mesa do lado. De falar palavrão. Mania boba de achar mais legal um bombom comprado de última hora do que um presente caro, só por saber que foi lembrada no meio do dia, mesmo não gostando muito de chocolate.
Mania de falar demais. Mania de esquecer o que fala. De ficar com preguiça de contar histórias. De se exceder, sempre. De ter um humor reprovável.
Tinha mania de ser sempre muito. De falar que gosta, sem pensar. De mandar à merda. De não ser menininha, mas mesmo assim querer carinho.
Tinha mania de não saber jogar. De preferir perder.
Mania de aprender com seus erros, reconhecê-los e de não se arrepender de nenhum deles.
Mania de zombar dela mesmo. De brincar com seus defeitos para aprender a lidar com eles. Mania de não se importar demais com seus dentes grandes, sua pouca visão e seus quilos a mais.
Sempre teve mania de não fazer sentido. De ser instável. De gostar de gente fora da caixinha. De ter amigos escolhidos pelo caráter e não pela sexualidade. Mania de ter opinião, mas de não ter vergonha de mudar alguma delas.
Mania de ter critérios esquisitos, para homens, comida, lugares. Mania de gostar de abraço. Mania de querer ouvir coisa bonita dita no meio da conversa sobre como foi o dia.
De gostar de surpresa, da mesma forma que gosta de rotina.
Mania de gostar de se divertir. De dançar de um jeito esquisito.
Mania de deixar as pessoas sem graça quando fala que já fez alguma coisa que elas reprovam, de propósito.
Tinha mania de escolher errado, de ser errada.
Tinha mania de não ser a mulher que todo homem sonhou. De ser a mulher que quase nenhum consegue lidar. E que só a pessoa certa vai conseguir entender.
Mas ela sempre teve a mania de saber que pode tentar de novo.
E ficou triste por ele, que só tinha a mania de ter medo de mudar.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

De todo o céu...


A gente estava de mãos dadas quando ele resolveu olhar o céu:

- Eixtreilas.
- É, estrelas... O céu está cheio de estrelas hoje...
- Tem muita.
-Aham, um monte né? Você acha as estrelas bonitas?
-Aham
-E qual é a mais bonita de todas aquelas que estão no céu?

Ele soltou minha mão, olhou pro céu, apontou pra mim e disse:
-Você.

Me deu de novo a sua mãozinha e continuou andando, certo de que tinha dito a coisa mais óbvia do universo.

Eu tive a certeza de que, aos 4 anos, ele não estava mentindo. E dormi aquela noite, como a estrela mais bonita que tinha no céu.


segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Miguel


- Miguel. Ela disse do outro lado da linha

Aquele não era nem de longe o nome dele, mas ele sabia, aquilo era alguma coisa que ela queria dizer.
Ela nunca começava uma conversa com "alô" ou "oi, tudo bom?".
No começo ele estranhava atender o telefone e ouvir "eu ainda mato um imbecil hoje" ou "meu reino por uma capa de chuva" num dia de sol. Mas aos poucos ele foi se acostumando.
E hoje depois de ouvir isso ele deu uma mordida no sanduíche que insistia em querer ser o almoço dele, e respondeu:

- Hã?

Porque ele tinha se acostumado com os não-alôs, mas isso não significava que ele já entendesse tudo o que ela queria dizer.

- É, Miguel. O que você acha?
- Bem, se eu soubesse do que se trata eu poderia dar uma opinião.
- Miguel é um nome bonito não é?
- Não é feio.
- Então, ele é da milicia celeste. Achei mó legal isso. Anjão sabe?

Ele viu que só o sanduíche não ia bastar, e pensou seriamente em trocar por algo mais forte, absinto por exemplo, porque com certeza ela já tinha tomado umas vinte doses.. Ou não. Ele sempre soube que ela nunca precisou beber pra ter idéias loucas, ele sim, com certeza precisava, pra entender. Mas tentou continuar sóbrio, pois a tarde de segunda feira ia durar mais que aquele telefonema. Pelo menos ele esperava que durasse...

- Ok. Anjão. Não é feio o nome e o cara é um anjo. Você está tentando me dizer alguma coisa?
- Seria um bom nome pro nosso filho você não acha?

Ok. Agora ele tinha certeza que precisaria de todo o absinto da face da Terra.

- Hã?
- Poxa, você não acha?
- Você tá grávida, é isso?
- Nem...
- E porque mesmo você ficou pensando em um nome para um filho que nem existe?
- Ah por nada, achei Miguel bonito, só isso.
- Eu já te disse que você é doida... Essa semana?
- Essa semana não.  Até porque hoje é segunda né?
- Você é doida.
- Eu também te amo.
- Como sempre.
- Uhum.
- E para sempre.
- Talvez.

E desligaram. Sem tchau.


Ela voltou a se matar com aquelas planilhas, ele deu mais uma mordida no sanduíche, pensando que Miguel talvez fosse realmente um nome bom...
E cada um do seu lado deu um sorriso, certos de que nunca cansariam de se entender tanto, mesmo sempre se estranhando.